quinta-feira, 3 de junho de 2021

FORMAR PROFESSORES – PREPARAÇÃO, DEDICAÇÃO, PAIXÃO

 

FORMAR PROFESSORES – PREPARAÇÃO, DEDICAÇÃO, PAIXÃO
Maria José Magalhães, Maria José Vitorino
Professoras
Escola Informação, Nº 295 (Maio 2021), p. 11-12

Ser professor tem de ser uma paixão - pode ser uma paixão fria, mas tem de ser uma paixão. Uma dedicação.

António Gedeão / Rómulo de Carvalho

A formação inicial de professores não é a última etapa de um percurso académico, mas o primeiro passo de um caminho profissional. Esta consideração é importante, e entendê-la, e aceitá-la como ponto de partida distingue, ou deveria distinguir, o ponto de vista sindical - e de um modo geral dos profissionais - sobre as políticas e as práticas de formação inicial de professores.
Várias/os investigadores/as defendem um período probatório de indução profissional.  A formação docente, desde logo a inicial, deve assumir uma forte componente práxica – reflexão entre teoria e prática, centrada na aprendizagem das/os alunos/as e no estudo de casos concretos, tendo como referência o trabalho escolar.
A formação de professores deve passar para «dentro» da profissão, isto é, deve basear-se na aquisição de uma cultura profissional, concedendo aos/às professores/as mais experientes um papel central na formação das/os mais jovens. Têm de ser as/os profissionais desta área a decidir e a determinar o quê, como e quando as/os futuros/as docentes devem aprender antes de entrar na profissão. (a exemplo das profissões médicas, de enfermagem...)
Contributos como os de António Nóvoa[1] destacam o conhecimento, o tacto pedagógico, a cultura profissional, o trabalho em equipa (incluindo também, e cada vez mais, outros profissionais), o compromisso social, transversais à exigência que se coloca a quem é docente.

Em que medida é que a formação inicial corresponde aos desafios que estão colocados, hoje, e ao perfil do/a aluno/a? Como se articulam a formação inicial e a contínua?
Não tem sentido abordar a formação inicial de professores sem a estruturar de acordo com as competências necessárias para a prática profissional, e o perfil de professor que desejamos e de que, como comunidade, precisamos para sustentar um futuro melhor. Entendemos a docência como ciência, mas também como arte/ofício, exigindo:
  • Conhecimentos
  • Saberes-fazer
  • Valores e atitudes 
  • Ética e deontologia
  • Prática e investigação, sendo essencial a relação entre teoria e prática
  • Criatividade
 

"(…) teacher agency and expertise are often underutilized in education systems throughout the world, and that by encouraging greater teacher agency and better leveraging and utilizing the collective expertise of teachers, educational systems can become more successful and more equitable" [2]
ZEICHNER, Kenneth M.

 
No que constitui profissionalidade docente, é nuclear a agência dos/as professoras/es, que podemos explicitar em duas dimensões:
  • possuir um conjunto de conhecimentos e de técnicas necessários ao exercício qualificado da atividade docente
  • aderir a valores éticos e a normas deontológicas, que regem não apenas o quotidiano educativo, mas também as relações no interior e no exterior do corpo docente, o que se traduziria numa adesão ao projeto histórico da escolarização. 
Do Relatório Braga da Cruz (1988) depreende-se que a condição do corpo docente ser amplamente profissionalizada lhe advém-lhe, não tanto da especialização pedagógica, mas da sua dedicação exclusiva ao ensino (90%).  Hoje, não podemos afirmar que exista uma cultura comum aos docentes que se transmita através da formação.  Também não é claro que o processo de socialização dos professores esteja planificado ou dirigido pela instituição formativa, sendo mais algo que pertence ao que denominamos currículo oculto da formação. No respeitante à autonomia profissional, muitos factores (individualismo, burocracia, intensificação, funcionarização) confluem para a dependência dos professores de poderes externos à profissão - Estado, Universidade, empregadores / clientes..., que a regulamentam e condicionam de fora, na prática impedindo cada um e cada uma de exercer o seu sentido crítico profissional[3]
Em relação ao controlo sobre a profissão, verifica-se que é o Estado quem o faz, na seleção, na formação e nas habilitações para a docência. Deverão ser as/os docentes a controlar a profissão, e desde logo a reflectir e intervir sobre a formação inicial. A formação inicial e contínua deve contribuir para ampliar as suas competências para tal, e esse é hoje um dos desafios por enfrentar.  M. T. Estrela (1993) "uma das lacunas no estudo da profissão é a relativa aos aspetos deontológicos a qual tem sido marginalizada pela investigação, apesar da sua reconhecida importância como elemento integrador da profissão". [4]
O modo como nos vemos e nos exigimos saber, saber-fazer, ser, individualmente e enquanto colectivo profissional, interage, ainda, com o modo como os demais nos veem, esperam, ou nem esperam, de nós, nos valorizam. A profissão docente tem vindo a sofrer uma “perda de imagem e apoio social determinada tanto por fatores endógenos como exógenos...”.

Seja qual for a modalidade de concretização da formação inicial, presencial, à distância, desejavelmente remunerada, participada por profissionais, articulada com instituições formadoras, terá de corresponder aos atributos profissionais, no nosso tempo, tais como: 
  1. Revestir uma importância social excecional já que os seus membros trabalham com o conhecimento, as atitudes e os valores.
  2. Precisar de uma especialização, não sendo suficiente a intuição ou a vocação para o seu exercício.
  3. Exercitar-se regularmente num contexto espaço-temporal determinado, exigindo uma progressiva adaptação às suas condições.
  4. Ter um objeto próprio, consistente no desenvolvimento de atividades tendentes a provocar a construção do conhecimento e a favorecer processos de aprendizagem significativa nos/as alunos/as.
  5. Inspirar-se em valores sociais assentes em ideais democráticos.
  6. Precisar do envolvimento dos professores na investigação, como processo de construção do saber profissional, ultrapassando a ideia de que a prática docente é a-teórica ou de que a teoria nada tem a ver com a prática.
  7. Submeter-se ao controlo e avaliação públicas, garantindo o uso adequado dos bens de que dispõe e a melhoria do serviço público prestado.
  8. Desenvolver-se em quadros institucionais que devem oferecer um apoio psicológico e condições e meios suficientes para o exercício gratificante da atividade.
  9. Apresentar-se como um serviço colegiado o que requer a formação de equipas e a colaboração na investigação e na docência.
  10. Conceber-se como fonte de criação e difusão do conhecimento o que exige a participação detodos os que intervêm na tarefa, especialmente dos/as alunos/as, que são os/as protagonistas do processo de aprendizagem.
Cresce a percepção entre os professores e as professoras da urgência de medidas que permitam enfrentar os medos e prevenir o burn out, vencendo afastamentos entre gerações e sectores, tornando o exercício profissional atractivo -  por condições laborais dignas e estimulantes, mas também por maior confiança na preparação para o quotidiano docente e para a capacidade de influir na mudança para melhor, da carreira, das escolas, da educação.

Com preparação e dedicação, usemos a paixão, fria ou quente, de que somos tão capazes para tomar a palavra e fazer este caminho.


[1] NÓVOA, António. – Para uma formação de professores construída dentro da profissão. In Revista de Educación, Madrid :  Ministerio de Educación y Formación Professional, Nº 07 [2009]. Disponível em URL: https://www.educacionyfp.gob.es/revista-de-educacion/dam/jcr:31ae829a-c8aa-48bd-9e13-32598dfe62d9/re35009por-pdf.pdf (acedido 2021.05.24)
[2] ZEICHNER, K. M. - A formação reflexiva de professores : ideias e práticas. Lisboa : Educa, 1993. (Educa : Professores; 3). ISBN 972-8036-07-8. Disponível em URL: https://repositorio.ul.pt/handle/10451/3704 (acedido 2021.95.24)
[3] GARCÍA ALONSO, Maria Luísa. - Inovação curricular, formação de professores e melhoria da escola : uma abordagem reflexiva e reconstrutiva sobre a prática da inovação-formação. Braga : Universidade do Minho, 1998. Tese de doutoramento em Estudos da Criança. Disponível em URL>: http://hdl.handle.net/1822/10840 (acedido 2021.05.24)
[4] ESTRELA, Maria Teresa. - Profissionalismo docente e deontologia. Lisboa: Colóquio Educação e Sociedade, nº4, Dez. 1993, pp.1985-210


1 comentário:

pagedagner disse...

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