segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Carta aberta de uma mediadora de leitura neste reg...

Foto de Laredo Associação Cultural.

Transcrevo e aplaudo. Paula Jacinto Cusati, Portugal, 2017
Carta aberta a todos os que constroem e lutam por uma escola melhor

Cada início de mais um ano letivo representa sempre uma nova oportunidade de fazer mais e melhor. Cada recomeço pode e deve trazer consigo horizontes largos e possibilidades concretas. Este é o momento em que todos (famílias, docentes, funcionários, diretores e suas equipas, direções gerais, autarquias, etc) focam, ou deveriam focar, a sua atenção e os seus esforços conjuntos  na construção de uma escola mais motivadora, inclusiva e atenta à realidade que a circunda. Os dados europeus relativos à literacia são preocupantes: 1 em cada 5 jovens de 15 anos e 1/4 da população adulta da União Europeia não possui as competências de leitura e escrita necessárias para funcionar plenamente em sociedade (1). Embora os alunos portugueses de 15 anos tenham finalmente obtido uma posição superior à média da OCDE em leitura nos exames PISA de 2015 (2),  há muito para fazer. Enquanto mediadora da leitura e da escrita, gostaria de  vos convidar a refletirem comigo acerca do importante e insubstituível papel que cada um de vós cumpre, ou poderá cumprir, na edificação de um percurso escolar precioso e fecundo para as crianças e jovens que dentro de poucos dias entrarão nas salas de aula do nosso país. É essencial ajudar a formar leitores, ou melhor, a cultivar leitores autónomos e críticos, cidadãos ativos e participativos desde tenra idade.

Se as famílias reconhecerem neste recomeço a ocasião ideal para criar ou retomar hábitos de leitura partilhada, por exemplo, como a história da boa noite, todas as noites, sem pressas nem ânsias de praticar a leitura, mas simplesmente pelo prazer de desfrutarem juntos de uma boa narrativa, a criança associará o ato de ler a momentos permeados de afetos e conversas significativas. Se as casas dessas famílias forem ambientes leitores e elas mantiverem esses hábitos independentemente da idade da criança e da sua fluência leitora, esta não sentirá a leitura como um peso ou uma prova, mas como um gesto natural e também uma dádiva.

Se os docentes não se deixarem soterrar pelas orientações curriculares e programas, mas souberem lê-los com um sentido de prioridade e propósito, serão capazes de dedicar quotidianamente um tempo à leitura e à escrita. Saberão fazê-lo não com fichas, nem com manuais, mas com a autêntica literatura para a infância e juventude, com o seu entusiasmo, o seu conhecimento e a sua experiência de educadores e professores leitores, lendo em voz alta, fomentando a leitura individual e a construção coletiva de sentido. Para além de tudo o que já as habita, e que talvez até cause demasiado ruído (o início do ano letivo é uma excelente ocasião para "curar" os espaços educativos), as salas de aula têm que ter livros, muitos e bons. Com os livros certos os docentes conseguirão chegar até aos alunos mais relutantes.

Se os diretores e as suas equipas assumirem a leitura e a escrita como competências transversais fulcrais para a aprendizagem ao longo da vida, que sustentam a curiosidade, a imaginação e a criação de conhecimento em qualquer área, saberão mobilizar toda a escola em torno de um plano leitor anual ou plurianual. Saberão apoiar os professores bibliotecários e os restantes docentes, atribuindo-lhes os recursos (financeiros, humanos, formativos) necessários para que a leitura e a escrita não sejam reduzidas a provas, concursos, ou espetáculos, mas antes adquiram a dignificação plena e a alegria contagiante que advém da prática quotidiana, do esforço de aprender, do prazer de ler e compreender, e da consequente evolução e melhoria por parte dos alunos a todos os níveis.

Se as direções-gerais (e o ministério da educação) apoiarem verdadeiramente as escolas, os seus diretores e todos os docentes, saberão fazer cada vez mais um trabalho de acompanhamento e supervisão pedagógica em detrimento da fiscalização burocrática.  
Se as autarquias investirem seriamente na cultura e na educação, saberão apoiar as escolas e as famílias, dedicando uma boa parte do seu orçamento a programas municipais de promoção do livro e da leitura em parceria com as escolas, outras instituições culturais e, obviamente, o Plano Nacional de Leitura. Valorizarão os mediadores das bibliotecas municipais, confiando no seu trabalho e na sua experiência. Darão o seu exemplo e não meramente a sua presença. 
Tudo isto é possível. Uma escola leitora, inspiradora, para todos, não é uma utopia. Para que tal aconteça, cada um de nós (famílias, docentes, funcionários, diretores e suas equipas, direções gerais, autarquias, etc) deverá deixar de lado as críticas, as queixas, as desculpas e fazer a sua parte. Ninguém se pode excluir ou isentar. Basta de palavras. É hora de gestos concretos. Aproveitem este início limpo, este ano inteiro por escrever. Ajam, agora! 
Atenciosamente, 
Paula Cusati
mediadora de leitura

 (1) Síntese do Relatório do Grupo de Peritos de Alto Nível sobre Literacia da UE (Set. 2012): http://www.eli-net.eu/fileadmin/ELINET/Redaktion/user_upload/LITERACY_SUMMARY_PT.PDF
(2) Informações do IAVE sobre o Programme for International Student Assessment (PISA): http://iave.pt/np4/12.html

Fonte: 
Pequeno Armazém de Palavras: Carta aberta de uma mediadora de leitura neste reg...: Carta aberta a todos os que constroem e lutam por uma escola melhor Cada início de mais um ano letivo representa sempre uma nova opo...

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Quais os países mais avançados digitalmente - 2017

  Plotting the digital evolution index, 2017

Há mais conexões móveis que pessoas no planeta Terra, e mais gente com acesso a um telemóvel que a uma casa de banho. 

Digital technology is widespread and spreading fast. There are more mobile connections than people on the planet, and more people have access to a mobile phone than to a toilet. Cross-border flows of digitally transmitted data have grown manifold, accounting for more than one-third of the increase in global GDP in 2014, even as the free-flow of goods and services and cross-border capital have ebbed in the aftermath of the 2008 recession. While more people can benefit from access to information and communication, the potential for bad actors to create widespread havoc increases; with every year, the incidents of cyberattacks get bigger and have wider impact.
Ler mais aqui:



These are the world's most digitally advanced countries

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Objetivo: construir mais pontes entre o que se aprende dentro e fora das salas de aula

A Semana Global MIL 2017 será organizada segundo o tema "Literacia da Informação e dos Media em Tempos Críticos : Re-imaginando Modos de Aprender e Ambientes de Informação". A Unesco convida parceiros de todo o mundo a divulgar iniciativas que promovam a MIL, através do site oficial da Semana Global.
Entre 24 e 27 de outubro, na Jamaica, decorrerá uma Conferência associada, a 7th Media and Information Literacy and Intercultural Dialogue (MILID) Conference, reunindo organizações internacionais, universidades, associações, grupos de pesquisa e educadores, profissionais dos media, especialistas de informação e bibliotecários, decisores políticos e reguladores, ONGs e práticos em MIL de todo o mundo, para alertar a opinião pública para a importância da Literacia dos Media e da Informação a um nível global. Este ano a Conferência destaca ainda artistas, jornalistas, bibliotecas e outros profissionais que trabalham em programas de promoção da MIL em programas post-escolares e de âmbito comunitário.


Global MIL Week |UNESCO - 2017, 25.Outubro-1.Novembro



Global MIL Week | United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization



Rationale da Conferência em pdf, aqui

Manuais escolares e outros recursos educativos - a lei mudou


A lei 72/2017 publicada ontem em Diário da República - que vem alterar o regime jurídico de adoção e certificação dos manuais -, tem como única novidade o "fomento, desenvolvimento e generalização da desmaterialização dos diversos recursos educativos". A medida resulta de uma proposta do Partido Ecologista Os Verdes (PEV), aprovada em abril e justificada com a preservação de recursos naturais, o preço dos manuais e o peso excessivo transportado pelos alunos nas mochilas escolares.
A lei mudou, e isso tem importância, pois a nova redação obriga o Estado a agir relativamente aos manuais escolares, como já obrigava, mas compromete-o com estratégias que incluem naturalmente recursos digitais que ultrapassam o formato do manual tradicional - incluindo a sua produção, desmaterialização e generalização. A palavra generalização é importante, tanto como as outras - pois a universalidade do acesso a esses recursos é assumida como responsabilidade pública. 

Uma alínea que pode fazer a diferença se soubermos onde queremos chegar. A literacia digital neste caso é preciosa para ultrapassar juízos de corrida (estar à frente, estar atrás) e defender conteúdos relevantes, que todos possam escolher, usar, transformar e produzir. Não se trata apenas de ter menos peso nas mochilas, mas também do sentido que os recursos fazem nos percursos educativos e na efetiva igualdade de acesso a educação de qualidade por parte dos cidadãos. Em idade escolar, antes e depois da idade escolar.
Cada vez temos mais consciência de que se aprende dentro e fora da sala de aula, dentro e fora da escola

Nesse sentido, é pena que a última alínea do mesmo artigo que agora se altera não se tenha atualizado - onde se diz que o estado se obriga a promover a promover a "formação de docentes e responsáveis educativos em avaliação de manuais escolares", faltaria ir mais longe, e adicionar "e outros recursos educativos

Convém estar atento à paisagem, que não se resume aos editores comerciais e aos decisores oficiais. 
Para além dos caminhos traçados pela Rede de Bibliotecas Escolares, que de há muito assumiu a dimensão digital como uma vertente nuclear do seu desenvolvimento, e pelo Plano Nacional de Leitura, e das estratégias editoriais dedicadas a mercados nacionais - como a Porto Editora - ou internacionais - como a Planeta - há outros agentes que poderão ser determinantes na mudança de atitudes e nas medidas políticas com efeito real no quotidiano de quem aprende, ensina, forma e se forma.

Projetos como os do CIDAC com a Par-respostas sociais, por exemplo:  "Acima da Média! Descodificação dos Media ao Serviço da Cidadania Global", ou as iniciativas da Fundação Gulbenkian

Por exemplo... 

Em Maio de 2017, no Porto, decorreu o 4º Congresso Literacia Media e Cidadania, que reuniu uma comunidade significativa de educadores e investigadores
Entre 25 de Outubro e 1 de Novembro de 2017, bem depois das eleições autárquicas, acontece em todo o mundo a 6ª GLOBAL MIL WEEK - SEMANA GLOBAL DA LITERACIA DOS MEDIA E DA INFORMAÇÃO, para que a Unesco convoca parceiros em todo o mundo. Entre 24 e 24 de Outubro, em Kingston, Jamaica, acontece a 7ª Media and Information Literacy and Intercultural Dialogue (MILID) Conference.

Em Portugal , nos dias 21 e 22, teremos oportunidade de acolher alguns dos participantes dessa mesma Conferência, durante o 3º Seminário Internacional FOLIO EDUCA Revoluções, revoltas, rebeldias, educação, leitura e literatura.

É que isto anda mesmo tudo ligado.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Poderes

 OS Dias e os Livros. Divagações Sobre a Hospitalidade da Leitura
Seu [da literatura] poder deriva de suas possibilidades de gerar desdobramentos, de provocar estranhamento no interior de cada leitor, de colocar em crise sua identidade e questioná-la, de levar à descoberta de que cada um é outro. A promoção da leitura, como tal, supõe dar ao outro armas para ser diverso de si mesmo. É uma dádiva radical, uma prova de confiança no próximo. 
(GOLDIN, 2012, p.106)

GOLDIN, Daniel. Os dias e os livros: divagações sobre a hospitalidade da leitura. Tradução de Carmen Cacciacarro. São Paulo: Pulo do Gato, 2012.

texto: Daniel Goldintradução: Carmem Cacciacarroapresentação: Ana Maria Machado176 páginas12X17 cmpreço de capa: R$ 35,20
isbn 978-85-64974-21-0

Este livro convida ao pensamento crítico e à ação responsável por parte daqueles que estão compromissados com o fomento à leitura. Sem dar respostas prontas nem receitas demagógicas, Daniel Goldin transita pela história da infância e da literatura infantil e discorre sobre a indústria dos livros e o papel do editor.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Em Paraty, o Festival Literário não esquece as bibliotecas escolares e públicas

Fátima Bezerrra, senadora, Brasil, 2017



Senadora Fátima Bezerra participou de debate na Flip em Paraty

Bibliotecas e livrarias não são inimigas nem concorrentes, mas aliadas e confluentes em políticas coerentes de promoção do livro e da leitura. Uma das chaves do sucesso de tais poilítcas está na estabilidade das decisões governativas, a outra na formação dos recursos humanos, incluindo mediadores de leitura, bibliotecários e professores e educadores.
Mais uma vez em confluência e convergência, não em concorrência e dispersão de energias.


Fátima debate políticas públicas voltadas para a leitura e para a escrita na FLIP - Tribuna do Norte

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Desencarcerar as crianças

 O antídoto para o excesso de estímulos que a sociedade oferece é o tempo livre, o ócio, a brincadeira na natureza.
Créditos: Shutterstock
O antídoto para o excesso de estímulos que a sociedade oferece é o tempo livre, o ócio, a brincadeira na natureza.
Na verdade, as crianças migram para a tecnologia porque estão confinadas em casa. As escolas têm cada vez menos espaços abertos e livres e mais sala de aula, conteudismo. Com a energia explosiva que as crianças têm, o único jeito de domar alguém confinado é oferecendo distração permanente e, claro, aquela oferecida pelos telefones é irresistível.


A futilidade afeta o desenvolvimento de um indivíduo humanista

domingo, 2 de julho de 2017

Pela Paz, semana a semana, sempre



"Dizque", essa personagem que exagera, é um menos falado membro da família das "Fake News", e um vilão a quem convém estar atento.
O poder do boato é real, vive da credulidade do povo, refastela-se na fraca literacia, engorda com a ausência de pensamento crítico. E faz danos. Os boatos modernos já não usam tanto as vozes das vizinhas ou o rumor nas tabernas, estão por aí nos media, nas redes sociais, infiltrados ou descarados.
Como reza o lema da Unesco, assim vamos construindo a Paz nas mentes dos homens e das mulheres - é trabalho que nunca mais acaba, em toda a parte. Dz que é urgente? Neste caso, é verdade.
Ler mais sobre a Semana da Literacia da Informação e dos Media 2017 aqui:

Publicado também no Facebook e no Twitter - não se resiste aos fabulososos meios da ilusão da reprodução infinita, não é?